sábado, agosto 21, 2004


A humildade do conhecimento

Ando há uns dias a mastigar a "Pluma Caprichosa" da Clara Ferreira Alves que – a propósito de Sócrates – revelou uma imensa arrogância.

É que, se é certo que me estou nas tintas para o Sócrates e para os políticos em geral (que andam, efectivamente a abusar das citações por dá cá aquela palha), não é menos certo que a referida senhora, a pretexto da crítica que lhe tece, deu bordoada a torto e a direito, em tudo quanto era gente que gosta de citar. E porquê? Porque do alto da sua imensa sabedoria, entende que só a ela – pelas referências supostamente esmagadoras que paulatinamente vai publicitando – lhe é permitido citar.

Não sendo ela a citar, a citação está fora do contexto e “…tem o mesmo efeito do name dropping… como se a citação passasse a ser, hoje, um certificado de ignorância e bestialidade de quem associa George Sand a um homem e Chateaubriand a um naco de carne.

Afinal, nesta crónica – que eu ainda quero acreditar que não passou de um “faux-pas” – a dita senhora acaba por insinuar que ("preso por ter cão e preso por não ter") os ignorantes não sabem e não devem aspirar a saber. Assiste-lhes, apenas, um modestíssimo direito ao silêncio, sempre venerador, para não incomodar os "intelectuais" de pacotilha.

Mas quem é que a nomeou paladim da cultura em geral e dos citados em particular? Foi o mesmo que lhe sussurrou que "…nem consta que tivesse biblioteca"?

Eu, que não tenho a veleidade de supor que é necessário saber de cor a obra inteirinha de Platão para poder citar Sócrates, não sei se lerei hoje a crónica da dita senhora. Felizmente, Henrique Monteiro regressou de férias e isso permite-me o gosto da rotina semanal da "Única" a que está quase reduzida a leitura do "Expresso".

Uma humilde achega, apenas, de Confúcio (que não li todo): Não te preocupes se as pessoas não reconhecerem os teus méritos, preocupa-te se não conseguires reconhecer os delas.